Curiosidade é uma das forças mais poderosas para gerar conhecimento. É também uma das características mais marcantes da criança e do adolescente. Querer saber é muito positivo e, portanto, uma vontade que deve ser estimulada. Nascemos e logo percebemos um mundo inteiro de possibilidades. Quando o que vemos, no nível do chão, já está explorado, desejamos saber sobre o que não alcançamos. Passamos, então, a nos esforçar muito para sentar e levantar. Andar é um avanço incrível! Começamos, então, a explorar outros patamares em busca de novas descobertas.  Crescemos e o conhecimento não para mais de bater à nossa porta.

O problema é que nem tudo o que está disponível para ser conhecido precisa ser conhecido. Há coisas más, ruins que nunca deveriam sair do desconhecido. É por isso que nossos pais repetiam tanto a palavra “não”. O “sim” era permissão, o “não” era proteção. Com o passar do tempo parece que muitos pais cansaram do “não”. O “sim” gera sorrisos, o “não” gera choro e até gritos. O “sim” basta um, o “não” precisa de muitos. Por que será? O “sim” apresenta possibilidades, o “não” delimita possibilidades. O “sim” é poderoso para levar adiante, o “não” é poderoso para evitar cair adiante. O “sim” e o “não” são importantes, mas o “não” é o que está em falta.

Nossos jovens precisam de ajuda para tomarem conhecimento do que devem saber. Precisam de luz na direção certa e que desliguemos a luz que outros fazem brilhar sobre caminhos que não devem ser seguidos. Tenho saudade do tempo em que o pouco acesso ao conhecimento obrigava a gente a perguntar aos pais e a outros mais experientes. As dúvidas geravam relacionamentos. As perguntas eram dirigidas às pessoas. Hoje, para as dúvidas, não há pessoas, porque elas estão ocupadas demais. A alternativa mais disponível é a Internet. O problema é que uma dúvida digitada na Internet abre muito mais janelas do que se deveria ver.

O mundo virtual é uma infinidade de possibilidades boas e más. É uma ferramenta que precisa de instrução e supervisão para ser usada.  Muitos consideram a Internet um excelente entretenimento, mas é, na verdade, um mundo de conhecimentos abertos e sem restrições. Nenhum de nós deixaria um homem entrar em nossa casa e ensinar nosso filho a usar uma arma, mas, nos jogos virtuais, eles são treinados a usar e até matar. Não permitiríamos que rapazes sem roupa se aproximassem de nossa filha, mas, na Internet, eles se exibem e as convidam a fazer o mesmo como se isso fosse um desafio a ser vencido. Não deixaríamos uma mentira sem correção, mas, na Internet, uma pessoa pode aparecer com vários “perfis”: um para descrever quem realmente é e outro para aparecer como os outros dizem que ela deve ser.

Precisamos despertar para os riscos e estabelecer critérios para o uso dessas ferramentas tecnológicas. Computador e celular não são brinquedos.  Se fossem, viriam com um certificado do INMETRO avisando a idade apropriada e os riscos a serem evitados. Se não são brinquedos, não são inofensivos. Se oferecerem riscos, não poderão ser usados por crianças e por adolescentes, a menos que os critérios sejam seguros e realmente considerados por seus usuários.  No livro O Desaparecimento da Infância,  o autor Neil Postman denuncia o acesso precoce das crianças ao mundo adulto. Há coisas que precisam ser conhecidas apenas por adultos e há outras que nem adultos deveriam saber. Mas as crianças estão deixando de ser crianças porque sabem ser mais adultas do que crianças. Isso por causa da grande quantidade de informações a que elas têm acesso, embora não devessem.

Organizações ligadas ao desenvolvimento infantil, como a Academia Americana de Pediatria(*), advertem que crianças até 2 anos não devem ter acesso a qualquer tela. A partir de 2 anos, recomendam grande restrição ao tempo de uso e ao tipo de informação que acessam. As consequências danosas vão desde prejuízo no desenvolvimento do cérebro até problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem. Um estudo específico, publicado pela reconhecida revista Nature (**), mostra que o uso de smartphones e tablets reduz o sono das crianças. Quem é pai, quem é mãe sabe a importância do sono para a tranquilidade e o bom desenvolvimento das crianças.

Para depois dos 12 anos de idade também existem problemas. Frequentemente adolescentes têm sua vida exposta por não conhecerem os riscos da Internet. Muitos ignoram, por exemplo, que fotos publicadas não podem ter sua exibição controlada. Facilmente uma imagem pessoal e particular pode se tornar alvo de olhares alheios e maliciosos. Estratégias terríveis de aliciamento de crianças e adolescentes a práticas nocivas têm sido costumeiramente criadas e executadas na rede. O que fazer? É preciso ensinar os jovens a ter critério sobre o quanto e o que acessar e publicar. Esse ensino passa pelo exemplo e pela supervisão de quem ensina. Somente palavras não funcionam. É preciso que os filhos vejam o uso coerente que os pais fazem. Também precisam aceitar o “não” como proteção,  ainda que pareça “chatice”. Para isso é preciso relacionamento, tempo juntos, afetividade efetiva. As crianças têm mais facilidade de considerar o “não” apenas verbal, mas à medida que crescem, os adolescentes reconhecem muito mais o poder da influência do que o poder do grito. Uma vez que existe o elo relacional, fica mais fácil estabelecer acordos. Seguem algumas dicas práticas:

  • Crianças até 2 anos não devem ter acesso a Internet nem a telas individuais de qualquer tipo.
  • Crianças de 2 a 12 anos podem ter acesso a smartphones, tablets e computadores somente na presença de um adulto responsável. Portanto, não precisam ter um aparelho, podem acessar o dos pais junto com eles. Até 6 anos o limite de exposição à tela deve ser no máximo de meia hora por dia. De 7 a 12 anos pode ser de 1 hora por dia.
  • É muito melhor que as crianças gastem o tempo com atividades que incluam movimento, raciocínio e interação com outras pessoas. Leituras, jogos de tabuleiro, esportes e aulas de música são excelentes ideias;
  • A partir de 13 anos, a Internet é bastante requerida como ferramenta de pesquisa. Nunca, entretanto, o mundo adulto ou a impureza adulta precisam ser acessados. Por isso, os pais devem colocar horário para o acesso e supervisionar sempre o que o filho está vendo. Para isso o dispositivo deve ficar sempre num local da casa não privado onde todos possam ver o que está sendo acessado (nunca Internet no quarto, por exemplo). Existem também programas que oferecem o serviço de “segurança dos pais”. Nem sempre, entretanto, são confiáveis.
  • Ninguém menor de idade deveria ter aplicativos ou redes sociais com senhas que os pais não conhecem. Os pais devem ter todas as senhas dos filhos para que possam supervisioná-los e protegê-los. A privacidade tem sido o pretexto de muitas e perigosas mentiras entre filhos e pais.  Aliás, muitas redes sociais têm idade mínima que deveria ser respeitada.
  • O “sim” e o “não” precisam andar juntos. O “sim” para o que é bom e o “não” para o que é ruim.

 

(*) https://br.guiainfantil.com/materias/educacao/internet10-motivos-para-proibir-os-smartphones-para-criancas-menores-de-12-anos/

(**) https://www.nature.com/articles/srep46104

 

Que tal conversar em família?

  1. A Internet e os dispositivos eletrônicos estão facilitando ou dificultando a amizade na família? Por quê?
  2. Que acordos serão feitos para tornar o uso da Internet útil e seguro?
  3. Como os pais podem ajudar os filhos a crescer no conhecimento com sabedoria?

 

 

 

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Um grande abraço,

Tony Felicio

 Professor de Valores Para Vida