CONVERSAR

CONVERSAR
4 de setembro de 2018 Escola Cristã Jundiaí

Série: Verbos Para Conjugar em Família

Por Tony Felicio

Recentemente fui tomar um café da manhã com minha esposa em uma lanchonete. Ao final, fomos surpreendidos por uma atendente que veio até nossa mesa para nos dar parabéns. Curiosos pelo motivo que a levara a fazer isso, perguntamos por quê.

– Porque vocês estão sem celular e estão conversando! – respondeu ela.

Imagino que ela veja muita gente que se senta para comer com alguém, mas escolhe ficar teclando no celular em vez de aproveitar o momento para uma boa conversa. Eu mesmo já vi essa cena muitas vezes e em diferentes lugares. Pesquisas recentes têm demonstrado que o uso excessivo de redes sociais está associado a problemas de saúde mental como ansiedade, depressão e desejo suicida(*). Nas redes, os jovens conversam com as publicações e não com a realidade das pessoas. Isso leva a parecer que sempre está inadequado em relação aos outros. Outro problema é que as redes favorecem o foco em si mesmo. A enorme quantidade de selfies são um símbolo disso.  Talvez, por esses fatores, relacionamentos reais têm se tornado cada vez mais difíceis de serem desenvolvidos. É inaceitável, a meu ver, mas real o fato de as pessoas sempre acharem que responderem a quem se comunica pela internet é mais importante ou mais urgente que conversarem com quem está diante delas.

Vivemos uma época quando as tecnologias de comunicação tornaram as distâncias desprezíveis. Podemos ter conversas ao vivo com pessoas do outro lado do continente. Ironicamente, quem está mais perto, tem ficado cada vez mais longe. Amizades genuínas têm sido preteridas em relação aos amigos da rede social que, na verdade, têm mais contato com uma imagem que uma pessoa cria de si mesma do que com a realidade sobre ela. Não é de se espantar que relacionamentos virtuais acabem trazendo mais efeito sobre a vida de nossos filhos do que relacionamentos reais.  E quantos riscos isso pode trazer? Desconhecidos perigosos  têm se aproveitado desse excesso de confiança que se deposita no imaginário virtual e causado muito transtorno às  famílias.

Até mesmo em casa essa realidade tem se estabelecido. Maridos e esposas que não conversam; pais e filhos que conhecem mais o mundo virtual que um ao outro. Quanta riqueza estamos perdendo! Cada pessoa é única, tem sua própria personalidade, habilidades, sonhos, maneiras de pensar…  Na família, temos a oportunidade de conhecer uns aos outros profundamente e ainda de aprender uns com os outros. Para isso precisamos aprender a conversar. Esse verbo expressa uma dupla ação: falar e ouvir. Conversar implica ouvir o outro procurando perceber e acolher o que está sendo dito, o que ele quer realmente dizer e até mesmo o que ele não está falando porque não consegue.  Escutar implica em conceder uma atenção exclusiva e focada no outro. Os barulhos da própria mente ou do ambiente precisam ser calados para que haja uma comunicação efetiva. Isso demonstra de maneira prática o quanto amamos e nos importamos com quem está falando.

Conversar também implica em saber falar. A comunicação sincera implica em falar a verdade, mas com a atitude certa. Tem gente que afirma com certo orgulho: “O que eu tenho que falar, falo na cara, doa  a quem doer”. Não pode ser assim. A palavra sem verdade distancia as pessoas, mas a verdade dita sem amor tem o mesmo efeito. Falar a verdade em amor significa ter cuidado com o efeito que a palavra terá sobre quem ouve. Isso é um excelente instrumento de aproximação. A  verdade em amor  une, a verdade com arrogância separa.

Conversar, portanto, implica gastar tempo junto. A gente não aprendeu a falar de uma hora para outra, levou tempo.  Comunicar de maneira efetiva e construtiva precisa de muito mais tempo. Lembro-me com saudade da casa de meus avós. Depois do jantar, todos iam para a varanda a fim de conversar longamente sobre as histórias de cada um. Em nossa casa, temos procurado insistir nisso. Procuramos garantir ao menos uma refeição por dia em que todos estejam em casa e não precisem ter pressa. De frente uns para os outros, a mesa tem favorecido conversas, ora engraçadas e quase terapêuticas, ora  sérias e profundas, que marcam nossa vida e influenciam nossas escolhas.

Vamos conversar? Vamos deixar os celulares de lado quando estivermos em casa e vamos curtir nossa família? Maridos e esposas, pais e filhos podem ser grandes amigos e grandes companheiros de “prosa”. Fala-se muito de conflito de gerações. Esse é um mito que precisa ser desacreditado. Quando amamos, nos colocamos no lugar do outro. Isso produz uma aproximação que vence o estigma do rompimento entre gerações. Empatia com simpatia torna qualquer conversa agradável e relevante.  Um pouco de criatividade pode ajudar muito a sair da inércia e iniciar um movimento de boas conversas em cada casa. Vejamos algumas ideias práticas:

  1. Escolha um tema e pergunte o que cada um pensa sobre esse assunto.
  2. Peça que cada um conte uma história engraçada que viveu.
  3. Todos sentam apenas para responder à pergunta: como foi seu dia hoje?
  4. Assistir a um bom filme e depois conversar sobre os pontos positivos e negativos percebidos por cada um.
  5. Para um dia de domingo, todos podem sentar juntos para contar os planos ou desafios para a semana.
  6. Combinar com cada membro da família que cada dia um fará a pergunta-chave da conversa em família. Quando um perguntar, todos deverão responder o que pensa sobre o que foi questionado.
  7. No final da tarde, todos podem ouvir uma boa música e comentar sobre o que ela diz.
  8. Cada um comenta sobre um livro que está lendo. Pode, inclusive, combinar para que todos leiam o mesmo livro.
  9. Em todo final de semana reservem um tempo para a família passar junta. Cada semana um membro da família escolhe o programa que todos farão.

Para conversar e pensar em família:

Essa atividade pode ser um bom momento de conversa. Junte a família e deixe cada um responder às questões a seguir a respeito de si mesmo:

  1. O celular ou outras telas têm atrapalhado a quantidade ou a qualidade das conversas em família? Se tem, o que podemos fazer para mudar?
  2. Você consegue falar o que realmente precisa quando está em família?
  3. Você se sente realmente ouvido quando fala?
  4. Você acha que tem escutado os membros da família quando eles falam?
  5. O que significam empatia e simpatia? Essas atitudes têm sido praticadas em nossa casa?

 

(*)

https://www.youtube.com/watch?v=FId-rZHdP7s

https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2018/05/consumo-excessivo-de-midias-sociais-esta-ligado-doencas-mentais.html

https://www.bbc.com/portuguese/geral-40092022

 

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Bom tempo juntos!

Tony Felicio

Professor de Valores Para a Vida

Escola Cristã Jundiaí