Uma Nova Atakoma – Camila Cardoso – 8º ano C

Uma Nova Atakoma – Camila Cardoso – 8º ano C
1 de fevereiro de 2018 Escola Cristã Jundiaí

Uma Nova Atakoma

Camila Cardoso

Redação ganhadora, em 3º lugar, categoria infantil,

da 13ª Olimpíada de redação da Prefeitura de Jundiaí

 

Vivia em Benin, um minúsculo país próximo à Nigéria, em uma tribo em Atakoma. Não tinha irmãos, avós, nem mesmo um pai. Era apenas eu e minha mãe.

Quando meu pai soube de meu nascimento, foi embora, fugiu. E não voltou mais. Minha mãe, sozinha e em condições não muito boas, optou por não ter mais filhos. Não me considerava um menino de má sorte. Tinha tudo o que precisava.

Certo dia, minha mãe saiu para comprar frutas em uma feira popular na região. Preferi ficar em casa até ela chegar. Mas não chegou. Mamãe tinha saído de casa de manhãzinha, era final de tarde e ela não chegara. Decidi ir a sua procura, afinal já tinha sete anos, me considerava independente o suficiente.

A escuridão já dominava a noite e o silêncio era presente, até um grito estridente ecoar pelo local. Mamãe! Mamãe!, eu gritava. Estava sozinho, com medo, e para provar a situação, um homem, já de idade, que vestia um turbante e lenços em volta do corpo passou correndo ao meu lado, gritando e, sem mesmo olhar para trás, dizia: “Rebeldes Nigerianos! Muitos deles!”

A paz se tornou um caos, mulheres, crianças, idosos corriam angustiados. Estava perdido, confuso, até que Bahate, minha vizinha, apareceu, agarrou minha mão e, sem dizer nem mesmo uma palavra, me levou a uma pequena cabana, a cabana do curandeiro.

Apenas uma vela iluminava o local epude ver, em meio a mantas e cobertores, pessoas com feições aflitas e melancólicas. Até que vi alguém familiar. Minha mãe.

Ela chorava baixinho e o curandeiro estava ao seu lado. Me aproximei vagarosamente e com cautela e vi o quanto ela estava ferida.

Naquele momento, senti como se meu coração estivesse parado. Apenas sentei ao seu lado e observei o curandeiro fazer de tudo para tentar salvá-la. Ela era uma mulher forte, mas a morte foi ainda mais, e a levou embora consigo. Agora estava completamente só.

Tudo parecia estar acontecendo tão rápido. A dor não tinha fim… Fiquei pensando o quanto seria horrível outras pessoas passarem por uma experiência como essa. Percebi que não queria que elas sentissem a dor que senti. Queria poder salvar vidas.

Passei a viver da bondade de poucas pessoas que, quando podiam, doavam comida e suprimentos necessários. Os dias pareciam anos quando carregava o peso da minha dor. Minha única distração era ajudar o curandeiro a colher ervas medicinais e fazer curativos aos pacientes.

Certo dia, enquanto estava trabalhando na cabana do curandeiro, um homem, de feição distinta da qual eu não estava acostumado a ver, veio até mim e pareceu impressionado ao me ver ajudar aquelas pessoas.

Conversamos pouco, mas o suficiente para descobrir muito. Seu nome era Joseph e ele era um médico britânico, que veio para a África através de um projeto, o qual ajudava muito.

Fiquei encantado, mas ele pareceu ainda mais e resolveu me levar à Inglaterra junto a ele. Aceitei claro, não tinha nada a perder.

O tempo passou. Cada dia junto a Joseph, a medicina se tornava ainda mais fascinante. Joseph já era de idade e, somando a tantos anos de trabalho duro, ele não aguentava. E se foi.

Passei a morar com uma nova família na Inglaterra, até atingir a maioridade. Foi a pior decisão que tomei em toda minha vida. Para eles eu não era um membro da família. Era apenas um servo. Meus novos pais diziam que minha nova prioridade era trabalhar, fazer todas as tarefas domésticas, portanto meus estudos tiveram que esperar.

Foram longos cinco anos. Tinha tudo para desistir, porém ainda tinha chance para um recomeço. Tio Joseph havia deixado sua casa em meu nome, passei a viver lá e retomei meus estudos. Estudei como nunca.

Depois de meu esforço, finalmente me formei em uma faculdade do país. Parecia perfeito, mas ainda restava algo a ser feito.

Voltei para Benin, minha terra natal, visitei minha tribo, percebi que, ao passar dos anos, ela piorava. Não podia ficar parado, precisava fazer alguma coisa.

Criei novos projetos, construí centros cirúrgicos, desenvolvi um sistema de barragem para segurança e proteção de todos e, me inspirando na arquitetura britânica, mas sem mudar nossos traços culturais, construí novas moradias. A alegria e gratidão foram ainda mais cultivadas.

Não mudei o mundo, mas mudei meu país. Minha tribo. Meu povo. E isso é algo muito valioso para mim.

 

Escola Cristã Jundiaí